Comecemos pela língua. Entre si, as pessoas falam cokwe. O português existe, mas está em larga medida reservado aos de fora, uma cortesia estendida ao visitante e ao funcionário. É uma segunda língua no sentido pleno do termo. A língua materna carrega o peso da vida quotidiana: guarda a cultura, a tradição, as histórias contadas ao fim do dia. Não se trata de uma deficiência a corrigir. Trata-se de um facto a compreender. Uma nação que trata as suas próprias línguas como obstáculos é uma nação em litígio com boa parte de si mesma.
Depois, ouça-se a música. As pessoas mantêm-se fortemente ligadas ao seu próprio repertório, à música que pertence a esta terra e a esta história. Mas escutam também, em quantidades enormes, a música popular congolesa que atravessa uma fronteira que a história traçou a meio de um mundo cultural partilhado. Ninguém aqui vive isto como contradição. O gosto nunca respeitou fronteiras.
E depois há o televisor. Mesmo nas aldeias mais remotas se encontra um, e é espantoso o que por ele chega. As pessoas vêem futebol com voracidade. Em povoações a horas de qualquer estrada alcatroada, homens e rapazes sabem dizer quem são os grandes jogadores, que treinador está sob pressão, que transferência está a ser disputada. Acompanham as grandes polémicas de um jogo que se joga noutro continente com a fluência de quem tem lugar cativo no estádio.
Pense-se no que isto significa. Estes cidadãos participam na globalização. Não passivamente, nem como suas vítimas, mas nos seus próprios termos, escolhendo o que lhes interessa de um mundo que lhes chega por satélite. A aldeia não está isolada. Está ligada, e está ligada para fora.
Aqui reside a dificuldade. Um jovem da Lunda-Norte pode conhecer a política interna de um clube de futebol europeu melhor do que conhece a província vizinha. O mundo chega-lhe com facilidade. A nação chega-lhe com esforço. A falha não é dele. É uma falha de imaginação nacional, e é o desafio que se coloca ao Governo e a todos nós que pensamos sobre aquilo que mantém Angola unida.
A resposta não é fechar nada. É dar à nação a mesma vivacidade que o mundo lá fora já conquistou. Parte disto é prática. A música tradicional da Lunda-Norte, que é muita e muita dela excelente, devia ser gravada, vendida e ouvida em Benguela, no Huambo, em Luanda. Cultura que não circula não une. Um país em que cada província consome apenas a sua própria herança e os produtos dos satélites estrangeiros ainda não é um país no sentido mais profundo.
Parte é uma questão de atenção, e essa atenção tem de correr nos dois sentidos. O olhar nacional precisa de se voltar para regiões como esta, a sério e não apenas em época de eleições. E esta região precisa de ser encorajada a olhar para fora, para o resto de Angola, a criar curiosidade por lugares sobre os quais lhe deram poucas razões para pensar.
Boa parte pertence aos jovens. Já têm os instrumentos na mão. O futebol e o desporto juntam-nos. A música circula entre eles. As tecnologias baratas que hoje quase toda a gente possui permitem a qualquer um gravar, contar uma história e enviá-la para além da aldeia. Deem-se aos jovens razões e meios para narrarem as suas próprias vidas a outros angolanos e construirão algo que nenhum ministério poderia decretar.
Porque é esse o ponto. Uma nação não é um facto estabelecido de uma vez em 1975 e daí em diante permanente. É um sentido de colectividade, constantemente renovado ou silenciosamente perdido. É a convicção prática de que somos um só, de que estamos nisto juntos, de que temos algo em comum que vale o incómodo.
A Lunda-Norte mostra quanta diversidade este país contém, e quanto trabalho falta ainda para que essa diversidade seja sentida, por todos os que nela vivem, como pertença.

