O desporto profissional vive uma contradição incómoda: movimenta somas cada vez mais elevadas, mas assenta em receitas estruturalmente instáveis. Direitos de televisão renegociados a cada ciclo, patrocínios que dependem de resultados desportivos, bilheteira sujeita à época e ao calendário, transferências cujo valor oscila com o mercado – nada disto garante a um clube ou a uma federação aquilo de que qualquer organização precisa para sobreviver: liquidez previsível. E é precisamente aí, na gestão do fluxo de caixa entre um ciclo de receitas e o seguinte, que reside o problema mais sério de governação que o setor ainda recusa enfrentar.

Quando a liquidez escasseia, as organizações desportivas recorrem a financiamento externo – e nem sempre perguntam de onde vem. Estruturas de investimento opacas, empréstimos de intermediários pouco identificados, comissões de agentes desproporcionadas, patrocínios sem substância comercial: são todos mecanismos que resolvem um problema de tesouraria a curto prazo e criam, em troca, uma porta aberta ao branqueamento de capitais. Não é uma suspeita abstrata. A Europol e o FATF têm identificado repetidamente o desporto, e o futebol em particular, como setor de risco elevado para fluxos financeiros ilícitos, precisamente pela sua dimensão, volume transfronteiriço e opacidade de propriedade.

A União Europeia já tirou consequências disso. O pacote de branqueamento de capitais de 2024 – o Regulamento (UE) 2024/1624, a Diretiva 2024/1640 e o regulamento que cria a Autoridade Europeia AMLA – vai integrar clubes de futebol e agentes desportivos como “entidades obrigadas” a partir de 2029, com deveres de avaliação de risco sobre transferências, comissões de agentes, patrocínios e estruturas de investidores. É um reconhecimento tardio, mas inequívoco, de que o desporto deixou de poder gerir o seu dinheiro sem supervisão externa qualificada.

Nenhum país foi tão longe como o Reino Unido. O Football Governance Act de 2025 criou o Independent Football Regulator (IFR), com poderes de licenciamento, testes rigorosos de idoneidade a proprietários e administradores, exigência de planos financeiros detalhados e poderes de investigação equiparáveis aos de reguladores financeiros como a FCA. O IFR não gere futebol; escrutina quem o financia e como. É essa a distinção que falta na generalidade da Europa continental: a diferença entre um organismo desportivo que se autorregula e um regulador independente, com poderes reais, que responde perante o Estado e não perante os regulados.

A dependência de receitas voláteis não é um detalhe de gestão – é o motor que empurra clubes e federações para financiamento obscuro. É um risco tanto maior quanto mais dependente de financiamento público for uma federação, e mais frágil for o seu modelo de governança, sustentado, na maioria dos casos, por dirigentes benévolos sem os mecanismos de gestão de risco que a escala do problema exige. E financiamento obscuro, sem escrutínio independente, é criminalidade por outro nome. A resposta não é mais um código de conduta voluntário. É um regulador qualificado, com poderes de investigação, autoridade sobre a idoneidade de quem financia o desporto e independência real face aos organismos que supervisiona. Sem isso, continuaremos a discutir sustentabilidade financeira depois de os danos estarem feitos.

Linha da Frente é um espaço semanal da responsabilidade da Sport Integrity Global Alliance (SIGA)