O evento, realizado no Prova d’Art, no Miramar, ficou marcado pela presença surpresa da escritora Maria Eugénia Neto, viúva do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto.

Vizinha do espaço cultural, a autora de “E nas Florestas os Bichos Falaram” surgiu de surpresa, emocionando a organização e o público.

A presença ilustre forçou uma alteração no alinhamento do espectáculo. Dom Caetano, conhecido pela audácia de musicalizar o poema “Adeus à Hora da Largada”, teve de voltar a interpretar a canção a pedido da escritora. 

O momento, de forte carga simbólica, foi transmitido em directo pela Rádio Nacional de Angola (RNA) e pelas plataformas digitais do Prova d’Art.

Com o suporte instrumental da Banda Movimento, o anfitrião partilhou o palco com Calabeto, Lulas da Paixão, Robertinho e Fiel Didi. 

O quarteto de convidados representou, com mestria, os “quatro mosqueteiros” da amizade e da camaradagem artística no país. 

Juntos, os artistas apresentaram os ritmos urbanos angolanos na sua forma mais pura, proporcionando momentos que aliviaram a alma e evidenciaram a riqueza do Semba.

Dom Caetano, que começou a despontar na época da canção revolucionária — período em que a poesia de Agostinho Neto servia de farol para os trovadores nacionais —, demonstrou a sua plena consolidação artística. 

Ao longo de toda a manhã e tarde de domingo, o espectáculo serviu como um ponto de encontro intergeracional, promovendo o diálogo cultural e a preservação das raízes musicais angolanas.

Músicas icónicas do anfitrião levantam poeira
Sucessos icónicos como “Tia”, “Semba Dilema”, “O Meu Chão Tem Tudo” e “Misoso” dominaram o alinhamento e conquistaram a atenção dos entusiastas presentes.
 
O público, que encheu o espaço cultural Prova d’Art, no Miramar, acompanhou com entusiasmo a transmissão radiofônica do projecto “Caldo do Poeira”, uma consagrada iniciativa da Rádio Nacional de Angola (RNA).

Dom Caetano e os convidados Lulas da Paixão, Fiel Didi, Calabeto e Robertinho estruturaram um repertório equilibrado, resgatando canções habituais e outras menos executadas no circuito comercial, tais como “Vizinho”, “Adeus Meu Chamavo”, “Como Está Miguel”, “Jambuila”, “Razão do Samba” e “Messene”.

O homenageado, cujo percurso artístico se confunde com a própria história da música urbana do país, exibiu a sua voz inconfundível ao interpretar clássicos como “Pecado Carnal”, “Dimi Dye” e “Muzambo”, deixando os convivas visivelmente animados.

Para celebrar o legado do colega, Lulas da Paixão subiu ao palco e puxou os passistas ao som de “Kim”, “Nguá Maka”, “Garan” e “Xicola”. O músico dividiu ainda os vocais em “Uegia Ki Usokana”, uma bem-humorada provocação sobre a disputa pela viúva alheia, que se tornou um estrondoso sucesso na voz de Dom Caetano.

Já Calabeto, apontado como um dos grandes conselheiros do anfitrião, recordou histórias da amizade e partilhou o que absorveu de Dom Caetano durante uma viagem a Cuba, antes de cantar “Como Está Miguel”. Com a sua habitual simpatia e magnetismo, o veterano apresentou as suas propostas de assinatura, incluindo “Ai N’zambi”, “Malanje”, “Bomba” e “Nga Mussengue”.

O amigo e antigo patrocinador, Fiel Didi, também deu o seu contributo ao dividir o microfone em “Mussunda” e festejar a distinção ao cantar os temas “Gitawa”, “Anangola”, “Rumba Jovem” e “Monandengue”, para o deleite da assistência. 

Na sequência, Robertinho elevou a energia do espaço com os seus maiores sucessos de pista, como “Joana”, “Kaquinhento”, “Kiowa” e “Sanguito”.

No fim do espectáculo, artistas e espectadores aplaudiram em uníssono a iniciativa da RNA que, por via deste formato, reconhece o contributo efectivo de Dom Caetano como peça fundamental na expansão e preservação do music hall nacional.

Em depoimento, Fiel Didi destacou o privilégio de fazer parte do elenco escolhido pelo homenageado, a quem definiu como um exímio defensor do semba e um cancionetista de vasto conhecimento: “Só para que conste, acredito ser o único coronel no elenco, porque os outros aqui são generais”, brincou.  

Robertinho subscreveu os elogios, apontando a persistência de Dom Caetano na elevação dos ritmos tradicionais e definindo a homenagem como justa e de altíssimo calibre.