Com a sala completamente cheia, o público vibrou a cada canção e reviveu momentos marcantes da música nacional das décadas de 80, 90 e início de 2000. O espectáculo ficou também marcado por fortes momentos de emoção, com homenagens muito aplaudidas ao malogrado saxofonista Nanutu, amigo e parceiro musical de longa data, e ao conceituado promotor cultural Carlos Flores, carinhosamente conhecido como “Pai Cabé”.

 Em declarações ao Jornal de Angola, o artista descreveu o reencontro com o público como uma experiência de renovada alegria, após um curto período afastado dos palcos nacionais. O músico destacou o impacto emocional de interpretar canções que compôs na juventude, entre os 18 e 20 anos, uma fase que, segundo ele, era profundamente marcada pela espontaneidade, ingenuidade e inocência da sua poesia da época.

“É sempre um prazer renovado, vai-nos enchendo a alma”, afirmou Paulo Flores, ao recordar a experiência de voltar a cantar aquelas composições perante pessoas que continuam a inspirá-lo.

O músico disse ser uma bênção reviver as suas canções junto do público, numa relação que considera fundamental para a continuidade da sua carreira artística.

A cada interpretação, os espectadores manifestavam entusiasmo, acompanhando as músicas e demonstrando a ligação afectiva construída ao longo dos anos com o repertório do artista. O ambiente transformou o espectáculo numa viagem pela memória musical angolana, com canções que marcaram diferentes gerações.

Quatro décadas de música
À medida que se aproxima dos 40 anos de carreira, Paulo Flores evitou fazer promessas sobre os próximos projectos, preferindo destacar a emoção que continua a sentir ao compor e interpretar as suas obras.
“Enquanto me emocionar a fazer as palavras e as músicas, enquanto me arrepiar a cantar, podem contar comigo para estarmos aqui a construir a nossa identidade”, assegurou.

O cantor sublinhou, desta forma, a importância de continuar a contribuir para a construção da identidade cultural angolana através da música, mantendo a ligação às suas raízes e às experiências que marcaram o seu percurso.

Nanutu sempre presente
O espectáculo foi também uma oportunidade para recordar o músico Nanuto, cuja perda, segundo Paulo Flores, continua a ser recente e muito dolorosa.

Apesar da saudade, o artista destacou a alegria dos momentos partilhados ao longo dos anos, desde o período da guerra até à chegada da paz efectiva, recordando as viagens, os concertos e as experiências vividas em diferentes localidades do país.

Entre as memórias evocadas, Paulo Flores recordou passagens por cidades destruídas pela guerra e momentos de companheirismo que marcaram a relação entre os dois músicos.

Mais do que as dificuldades enfrentadas, o cantor destacou os ensinamentos e a contribuição de Nanutu para a sua formação musical, sobretudo na pesquisa da música tradicional angolana e na aproximação aos mais velhos.

“Essencialmente é o companheirismo e também os ensinamentos”, afirmou, acrescentando que Nanutu o ajudou a pesquisar e a encontrar referências da musicalidade antiga do país.

O autor de “Gepê” garantiu que o legado do companheiro vai permanecer presente na sua criação artística e na memória de todos aqueles que partilharam a sua caminhada.

O espectáculo reafirmou a ligação do artista ao público angolano e a importância da música como espaço de preservação da memória, valorização dos ensinamentos dos mais velhos e construção da identidade cultural nacional.