Mas o silêncio não resolve o problema.
Setembro, mês dedicado à consciencialização e prevenção do suicídio, oferece a Angola uma oportunidade para olhar de frente para uma realidade que não pode ser ignorada. O dia 10 de Setembro, Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, deve ser mais do que uma data no calendário. É um momento para chamar a atenção da sociedade para a importância de valorizar a vida, reconhecer o sofrimento e criar condições para que quem precisa de ajuda possa encontrá-la.

Em 2026, a campanha internacional adopta o lema “Mudar a narrativa sobre o suicídio”, acompanhado do apelo “Começar a conversa”. A mensagem é simples: substituir o silêncio, o estigma e os preconceitos pelo diálogo, pela empatia e pelo apoio.

Em Angola, os números conhecidos devem preocupar-nos. Dados do Ministério da Saúde indicam que o Hospital Psiquiátrico de Luanda registou 511 tentativas de suicídio entre Janeiro e Junho de 2025, contra 336 no mesmo período de 2024. No mesmo período, foram identificados 1.992 pacientes com sintomas de depressão.

São números que não podem ser vistos apenas como estatísticas. Por detrás de cada caso existe uma pessoa, uma família, uma história, sonhos e expectativas e, muitas vezes, um sofrimento que não conseguiu encontrar resposta.

A preocupação torna-se ainda maior quando olhamos para a juventude.

A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 720 mil pessoas morrem anualmente por suicídio em todo o mundo e aponta o suicídio como uma das principais causas de morte entre os jovens dos 15 aos 29 anos.

Num país jovem como Angola, esta realidade deve merecer atenção especial. A juventude representa a força, a energia e o futuro da Nação, mas é também uma fase marcada por profundas transformações, inseguranças e desafios.

O insucesso escolar, o desemprego, as dificuldades económicas, os conflitos familiares, a violência, o abuso, a rejeição, as rupturas afectivas, o isolamento, a pressão social e o consumo de álcool e drogas podem contribuir para situações de grande sofrimento emocional.

Mas o suicídio não tem uma única causa. É resultado de uma combinação complexa de factores psicológicos, sociais, económicos, culturais e ambientais. Uma crise pode tornar-se insuportável quando a pessoa não encontra apoio ou não consegue imaginar uma alternativa para a sua dor.

É precisamente aqui que a sociedade pode fazer a diferença.

Um jovem que se isola repentinamente perde o interesse pelas actividades de que gostava, apresenta alterações significativas de comportamento, demonstra desesperança ou fala sobre a própria morte e não deve ser imediatamente acusado de fraqueza, preguiça ou falta de carácter.
Pode estar a pedir ajuda.

E nem sempre esse pedido é feito através de palavras.

Por isso, precisamos de aprender a ouvir.

A família tem uma responsabilidade insubstituível. Pais, irmãos e outros familiares devem criar ambientes onde os jovens possam falar sobre os seus medos, fracassos e angústias sem receio de serem ridicularizados ou julgados.

As escolas e universidades também têm um papel fundamental. A saúde mental deve integrar as políticas de educação e acompanhamento dos estudantes. Professores e responsáveis escolares precisam de estar preparados para reconhecer sinais de sofrimento e encaminhar os casos que necessitem de acompanhamento especializado.

O mesmo deve acontecer nas comunidades, igrejas, associações juvenis e organizações desportivas.

O desporto, a cultura, a música, a arte e o associativismo não substituem o tratamento psicológico ou psiquiátrico quando este é necessário, mas ajudam a criar vínculos, autoestima, sentido de pertença e esperança.

Precisamos igualmente de combater a ideia de que procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica é sinal de fraqueza.

Pedir ajuda é um acto de coragem.

O Estado tem também uma responsabilidade central. A prevenção do suicídio não pode depender apenas das campanhas de Setembro. É necessário fortalecer os serviços de saúde mental, aumentar a capacidade de atendimento, formar profissionais e criar respostas acessíveis para crianças, adolescentes e jovens.

A prevenção exige uma abordagem que envolva saúde, educação, trabalho, comunicação social e organizações comunitárias. Deve assentar na identificação precoce, no acompanhamento das pessoas em situação de risco e no desenvolvimento de competências socioemocionais.

Também os meios de comunicação social têm uma grande responsabilidade. Informar sobre suicídio exige cuidado. O sensacionalismo, a exposição desnecessária e a romantização podem causar danos. A comunicação deve privilegiar a prevenção, a informação e a indicação de caminhos para procurar ajuda.

Setembro Amarelo não deve ser apenas uma campanha de cor amarela, cartazes ou mensagens nas redes sociais.

Deve ser uma oportunidade para mudar comportamentos.

Devemos perguntar aos nossos filhos como estão. Devemos estar disponíveis para ouvir os nossos amigos. Devemos prestar atenção às mudanças de comportamento dos jovens que nos rodeiam. E devemos ensinar que procurar ajuda não diminui ninguém.

Falar sobre suicídio de forma responsável não significa incentivar o acto. Pelo contrário, uma conversa aberta pode ajudar a reduzir o isolamento, permitir que a pessoa se sinta compreendida e criar espaço para procurar ajuda.

Angola precisa de uma cultura de valorização da vida. Uma cultura em que a saúde mental seja tratada com a mesma seriedade que a saúde física, em que as famílias não tenham vergonha de procurar ajuda, em que as escolas saibam acolher e em que os jovens encontrem espaços de pertença, esperança e construção de futuro.

Proteger a juventude é proteger o futuro do país.

E proteger a vida deve ser uma responsabilidade de todos.

Que o Setembro Amarelo não termine quando Setembro acabar.

Que a conversa continue nas famílias, nas escolas, nos hospitais, nos locais de trabalho, nos clubes, nas igrejas e nas comunidades.

Porque, perante alguém que sofre, uma palavra pode fazer diferença. Uma escuta atenta pode fazer diferença. Um encaminhamento para ajuda especializada pode fazer diferença.

E, por vezes, estar presente no momento certo pode ser a diferença entre perder uma vida e permitir que alguém volte a acreditar que ainda existe um amanhã.

(*) Especialista em Relações Internacionais